O livro "O Rinoceronte de Clarice" tem 11 contos fantásticos, todos falando de Itararé, ficções com três finais, único no gênero, que foi destaque na mídia, inclusive televisiva. E recomendado como leitura obrigatória na matéria Linguagem Virtual, no mestrado de Ciência de Linguagem, na Universidade do Sul de Santa Catarina.

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O RINOCERONTE DE CLARICE
onze contos interativos
__________________________________________________
Série: Literatura Virtual em 3 Dimensões-Gênero: Ficção-Angústia
SILAS CORRÊA LEITE
1998

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Para minha irmã Neusa que só vi uma vez quando muito criança
e nunca mais esqueci
....................................................................................................
(A pior Saudade é a do que não se conhece bem) O Autor

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COMENTÁRIOS DO AUTOR
-Tive idéia desse livro, ao lembrar meus tempos de
criança ainda no Curso Primário do Grupo Escolar
Tomé Teixeira, em Itararé, quando a Mestra (à
bença, Dona Jocelina!) inventava uma graciosa
brincadeira dizendo: "Vamos bolar histórias. Eu
começo e vocês terminam." E dava de contar
causos e acontecências, de Lobato, dos Irmãos
Grimm, de Itararé (ah os proseadores rueiros de
minha aldeia!), ou invenções lá dela mesma. Com
eu era um gurí atinado de curioso, sapeca e, já
carregado de sonhos para plantar nas sofrências da
vida, eu pegava nas asas das coisas que ela
inventava de pincelar e ia longe. Ela mesma, depois
que lia as minhas, ponhamos, "continuações", dizia
(feliz com o resultado da empreita pedagógica
vivenciada) "-Esse piá vai longe". Pois aqui estou
eu, passando a "asa da criação" para vocês. Ir
longe pode ser também dentro da gente? Cabeça,
coração, alma?. Escrever é entrar no céu do
Sentir... Mas também pode - além de nos permitir
"inventar o inexistente" - invadir o destino das
águias, dos rios, fundando horizontes em bruscos
córregos íntimos. Abrindo janelas em paredes mal-
caiadas. Tirando arreios de nossas esperanças
tristes. Como criar é "praticar a sensibilidade do
sonho", que saibamos pintar de luz esse clube de
aventuras chamado "asa de EXISTIR". Afinal, não
há sensações no esquecimento, e, como diz a
canção, a semente tem que morrer para germinar e
virar pão. Na minha ficção-angústia, traduzo o
desespero de poeta em polimentos de matizes &
iluminuras. Talvez só os imbecis sejam felizes.
Deixo, nesses interativos plugs, que o leitor deposite
o favo de sua sensibilidade, faça a sua parte.
Talvez, então, haja um final feliz, um barco, um bip,
um chips; um mero pássaro-flor na sensibilidade
revisitada com tintas de luz e algum mimo de ternura
virtual
(O AUTOR) Itararé-Sul do Estado de São Paulo
Carranca de Outubro de 1998.(Chuva e Cerveja)

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O RINOCERONTE DE CLARICE
(Literatura virtual - contos interativos)
QUASE PREFÁCIO
Eu começo e o leitor termina. Eu deixo opções para o leitor escolher um final
que lhe seja gracioso, feliz ou trágico. Mas o leitor também pode variar mão e
abrir seu leque, criar seu próprio diretório de criatividade e acender as
lanternas do seu "sentir", de seu imaginar; de seu próprio punho. Pode também,
numa primeira avaliação, ler um final. Depois ir formando opinião a respeito.
Quando quiser, rever o conto mas com a opção do acabamento diferente da
versão anterior. Depois dos três finais ora arrolados, ainda terá seu espaço no
livro, numa página, para escrever seu próprio final. Pode fazê-lo à caneta,
talvez datilografar uma página e colar no espaço; ou abrir uma janela no seu
computador. Se quiser pode me enviar sua "asa de continuação". Talvez, numa
edição futura, contemplemos os leitores que escreverem um final próprio,
peculiar, curioso, gostoso (sob qualquer enfoque técnico-narrativo ou de
desfecho) colocando-o(s) no livro. Afinal, nessa interação "Escritor-Leitor-
(Sentidor)" pode ser que nos encontremos no texto final, definitivo. Esse é o
lado interativo que o livro também como projeto-experiência propõe.
Deixemos o leitor compor seu próprio desfecho. Assim, fará sentido essa idéia
que também é um sonho. Passo a "asa do sonho" para o leitor. Obrigado pela
parceria. Viver é criar. Mãos ao lápis. Ou, ao micro. Escrever é dar
documento à resistência de sensibilidade que nos cabe nesse Planeta Água,
onde só os lutadores não passam em brancas nuvens, apesar de muito ouro e
poucas pétalas.
Silas Corrêa Leite – de Itararé-SP – Carranca de Outubro,1998

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"Ele era um vendedor profissional de contos incompletos, para que escritores amadores os
continuassem. Ele criava muitos personagens, elaborava uma pequena trama, e depois vendia
essas histórias de porta em porta. Carregava os contos numa maletinha de couro marrom,
todos eles juntinhos, espremidos um no outro, como se amparassem a si mesmos em busca de
quem lhes desse um fim. Tão espremidos que muitas vezes alguns personagens mudavam de
um conto para outro. E o vendedor considerava-se bem pago, mesmo quando não era bem
recebido. Uma porta em sua cara, uma cara feia do lado de dentro, um sorriso inocente de
criança; tudo para ele era belo, e ainda que não vendesse conto algum, voltava sempre
satisfeito. Com ideias novas para novos contos. Vivia de literatura interativa, virtualmente
alimentado por pequenas e grandes emoções(...)"
Edson Marques, in, Manual da Separação
Edição do Autor - 1998

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O quanto seria pobre um rosto que não fosse iluminado
de dentro, pelos sonhos.
(Jon Bang Carisen - Documentarista Dinamarquês)

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"...talvez como num futuro já vivido, seres aparecem entre a
mente e a mineração, entre, a memória estávica e a virtual,
entre o passado e o futuro, como querendo resgatar algo
perdido; como voltar, para novamente poder ir em frente(...).
E como não podemos entender o tempo da pedra, então
brincamos com ele e fazemos dele um veículo de formas,
imagens e suporte para que objetos do mundo contemporâneo
possam ser agregados e sirvam de ligação, reflexão e poesia".
............................................................................
(Seres - Clóvis Moreno)

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CARMEM
"...teu pai voltou para ouvir/Tudo o que tinhas
contra ele/Não podia acreditar(...)/Assim teu
grito de libertação/Materializou-se em
teu silêncio sacrificial"
(Ted Hughes/O Lance -"Birthday Letters")
Carmem era uma aposentada professora quase viúva e
solitária, descendente de antigos imigrantes severos de Toledo, Espanha.
Todas as irmãs, ruivas como ela, no entanto mais velhas, tinham morrido. O
marido sofrera um grave acidente numa corrida de cavalos e estava na UTI da
Santa Casa de Misericórdia de Itararé, só se restando ali, Carmem, com sua
parca vidinha sem horizontes, pois filhos não tinha, os sobrinhos foram embora
de Itararé em busca de melhores condições de trabalho e estudos, só tendo suas
úmidas paredes sósias manchadas de abandonos, seus muros da chácara
periférica de flores mal-cuidadas, sua parceria sagrada e silente com
alvoroçados pardais silvestres, uma mula castrada (com nome masculino),
sarnentos gatos magros e algumas árvores que lhe davam frutos, sombras e, às
vezes, uma vontade enorme de transformar aquele antigo balanço de cordas do
ramo mais alto da amoreira sem bichos, em suicídio final para sua tragédia
pessoal de existir abandonada e triste. Quantas vezes se pegara a cismar
entrevada em mil pontos de interrogações:
"-Deveria ter amado o filho do caixeiro-viajante das Lojas
Riachuelo que não era príncipe encantado, mas queria ser marinheiro, virar
mundo e ser feliz? Deveria ter estudado, ao invés da Matemática, isto sim,
Educação Artística, Arqueologia ou Fauna Marinha? Deveria ter perdoado o
severo pai espanhol com o qual morrera de-mal, pois lhe dava boas surras de
cinta por que era turrona e de pá virada? Deveria ter ouvido a mãe Esmeralda
e entrado para o Convento Nossa Senhora de Fátima, pagar promessas dos
antigos imigrantes da família; tornar-se enclausurada Irmã de Jesus? Na
verdade, doía-lhe a frustração emperrada no cadeado do medo. Tinha sido
devedora, tinha mentido, tinha havido mal falada, tinha sido por muito tempo o
quê não era. Era uma mulher de extremos. E, afinal, o que era agora ali na
provinciana aldeia paulista de Itararé, sem eira nem beira? Uma parca pensão
pública que a cada ano mirrava, por causa da proposital falência do estado
norteado por neo-liberais de araque; o arremedo de marido na frágil linha

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tênue entre o vegetar e o morrer completamente, os amigos de infância e de
escola mortos, todos, irremediavelmente mortos. Mal reconhecia um ente
qualquer na rua. Era como se uma estranha em Itararé. Pior: era uma estranha
para si mesma. Onde já se viu aquilo? Quando, ocasionalmente se olhava no
espelho carcomido do guarda-roupa de imbuia-cheirosa, tinha medo, muito
medo. Quem era aquela ali que se lhe vinha então? Era esquisita até. Onde
estavam os brilhantes olhos de esmeraldas polidas a procurarem vãos de
cercas, trigais de sonhos, estradas de tijolos amarelos? A pele, franzida de
velha. Os cabelos cor de fogo, rareando. A testa esticada, feia, com rugas. A
boca oval murchando e as mãos, meu Deus, as mãos! Mãos de morta,
reconhecia ensimesmada, querendo fugir, não acreditando. E punha identidade
na sua tristeza aprendida pela sina dos rotineiros dias em vãos. Casara com um
primo em segundo grau por pressão do pai, já que estava grávida de um outro
entojado; um porqueira de ferroviário tinhoso, bom de papo mas casado e com
fieira de filhos topetudos. Tudo tinha sido um ocasional e simpático arranjo.
Mas o primo molóide era um beberrão, e a criança também morrera antes de
formar-se toda na placenta com problemas, pois que não pegava cria. Nem
para isso prestava. Os seus alunos pirralhos da escola municipal, reclamaram
que ela estava sem-seca, casca-grossa, mandona e algo bisonhamente estúpida.
Ficou encostada, de favor, na biblioteca-livraria da escola, até ser aposentada
com laudo provisório de meio esquizofrênica. Até a matemática lhe
abandonara. Agora se restava ali, aleijada de ser. Deveria ter ido para
Curitiba tentar a carreira solo de cantora lírica de ópera? Tinha voz de cristal.
Deveria ter fugido com o Engolidor de Fogos do nômade Circo Alemão? O
tipo era fogoso e especial. Deveria ter tomado cerveja preta até morrer de
porre, pois que morrer bêbado é uma morte que mina a dor do crime de
existir? Tinha espasmos, siricoticos. Devaneios ou onirismos? Tomava
remédios pesados. Depressões, acirramentos, vazios existenciais que o
Lexotan não ajudava, além de traumas, renúncias, frustrações. Até quando ia na
agência da Caixa receber o minguado salário mensal, era tratada como uma
nhenga qualquer, uma candonga. Mas, isso é o que era. Um nada. Cacos de
lixo. Cadê a vaidade, a boca pintada de batom carmim, os cachos dos cabelos
da cor de peroba-braba? Perguntas ôcas. O São Judas-Tadeu no pedestal perto
da janela não valia nada, sequer um tostão de prosa ou arremate de reza
decorada que mais fosse de toleima. Deus era um silêncio sem documento.
Poderia se apinchar no "tembé" fatal (de suicidas) da gruta benta de
Andorinhas, do rio Itararé, que dividia São Paulo do vizinho estado do Paraná.

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Poderia vender tudo o que tinha e ir conhecer Cuba, pois que acreditava ainda
no ético-humanitário sonho socialista. Poderia sumir no mapa, vagamundear;
ninguém ia reparar mesmo. O pilão de madeira nobre pegando cupim por falta
de uso. A mula pastando erva daninha A velha máquina de costura,
ultrapassada. O roufenho radinho de pilha parecia quase um ente, um filho. Um
filhote? Conversava com ele, feito louca, débil; ouvia suas músicas sertanejas,
palavras ao léu e até mesmo chiados depois que a Rádio Clube de Itararé saía
do ar, quando ficava o éter como risinhos e chistes rápidos a caçoarem de sua
desgraça de ridícula e caínha. Chiados? Quando tomava remédios para dormir
feito uma mula tonga, não caçava direito o tino. Mas quando o remédio não
pegava prumo mais (ou dava o chamado "rebite" no psico-somático) parecia
que o aparelho ligado com a estação fora do ar era um ente e, o chiado
chispando perto começou a dizer coisas. Estaria impressionada? Estaria
ficando louca de-vereda? Será o impossível? Dizia a voz que ela deveria ter
sido bailarina em Amsterdã, ou casado com o Violinista judeu que viera com
uma orquestra de Sorocaba dar concerto da Nona Sinfonia de Bethovem na
lapa benta de Itararé. Era briguenta, teimosa, mula empacada às vezes, mas
tinha medo de ousar, de ir para o exterior, de aprender a nadar borboleta, de
pintar costumes chineses em seda, de empinar papagaios. Na infância era
refreada pelo pai severo e católico, conservador até as tripas. Na adolescência
era vigiada pelas sarangas irmãs mais velhas, beatas e mandonas como o
cusarruim. A mãe era uma santa, mas totalmente submissa ao velho patriarca
espanhol. Era revoltada com isso. Tem cabimento? Parecia um curtume.
Casara e se achara rendida em casa, pois o marido era meio tantã e abilolado
também. Não a amava, sentia. Mas, afinal, quem a amava? Tinha sido usada,
dirigida, feito um inventariante de cenários que lhe deixara o vazio camarim da
dor, do abandono. Nunca vira um cais, um arrozal pronto para a seara ou ceifa,
um concorrido baile de gala, de Grito de Carnaval, uma festa de São João com
bandeirinhas, uma alvissareira quermesse ou mesmo um simples jogo de
futebol de piás berebentos e peidorreiros na descalça rua 24 de Outubro, que
era do lado de sua casa. Ficara ilhada na sua resignação como a se sublimar
por ser ruim, bocuda e desgraçada. Sabia que a velha garrucha do marido de
arranjo estava no criado-mudo. Mas, cadê coragem-calço para acabar com
aquilo tudo? Sabia que, ao abrir as portas de casa e dar para a ruela de terra
branca e calipiás, seria temida como uma bruxa de mau agouro. Sim, era esse o
destino algoz que o livro dos dias lhe legara: iria feder até ser achada morta
por causa de denúncia de vizinhos estrupícios. Isso lá era vida? Benza-Deus!

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Tinha que fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais. Ou já seria tarde
demais? Talvez devesse vedar as portas da casa, enfiar a cabeça de miolo
mole no forninho branco e abrir todas as bocas de gás do fogão azul riscadinho
de pelicanozinhos vermelhos. Tinha mania de limpeza. Mas era seu íntimo
estúpido um paiol de trastes velhos. Ódios desaprendidos, frustrações-
coivaras, resquícios de vinganças cultivadas. Descobrira que era sensível mas
a insensibilidade geral, coletiva, tinha vencido. Era só de si mesma. Sem
herdeiros, sem amigos, sem ter onde cair viva. Que Deus tivesse piedade de
sua inutilidade. Isso tudo, fora a lição que levara da existência que legara: um
corote de mediocridade. Tinha que reagir antes que perdesse as forças. Afinal,
estava velha e morta por dentro, mas ainda não tinha meio século de vida.
Lembrou Homero que dizia que viver sempre em tristeza era da espécie
humana. Tinha que assumir aquilo tudo? Sabia que existir não era só a mente.
Deveria ser alguma coisa além. Mas, o quê fazer? O rádio ligado e, com a
emissora fora do ar, os chiados já decodificados na convivência lhe deram a
intenção contida em medo: "Reaja - Fuja, Fuja, Fuja! (Sim, não queria aquele
azedume de melancolia mórbida, quase gótica.)
Mas, insegura, logo em seguida ela se inquiria: Como?
Quando? Para onde? Sua chácara, com nome inglês, era seu abismal. A rua,
com nome engraçado, até lhe dera um número mínimo como nota imprópria de
valor zero. Com preocupação insana procurou o seu Carlito Ely da Imobiliaria
Casanobre. Mas teve medo (tinha medo de gente!) e desconfiou das supostas
intenções dele. Reinou: não queria passar procuração de compromisso de
venda. Seria só uma intuição ou carência singular? Poderia perder tudo e
piorar as coisas. Pensou em vender o jipe velho do marido entubado no
hospital, mas o que lhe pagariam não valeria pouco mais do que uma passagem
de ônibus-leito para São Sebastião do Rio de Janeiro, além de uns lanches
rápidos em beiras de estradas. Precisava haver uma saída. Tinha que haver.
Sim, era isso, meu Deus!: escreveria para os jornais. Aquelas colunas
oferecendo e pedindo companhias, aias, amantes, mensagens. Era isso o que
mais queria: saber pessoas DIFERENTES. Sabê-las em pormenores no vício
da vida especial, exótica; trocar impressões de resistências em comum. Só a
muito custo enviou a carta, depois de meses escrita e selada ao lado do pote
marrom com lesmas; pagou a taxa do serviço, esperou. Em menos de um mês
começaram a chegar as cartas-respostas. No texto - que depois lhe enviaram
uma cópia - dizia: "Morena, 49 anos anos, professora, procura companhia.
Enviar carta com fotos e intenções. Adora viajar, gosta de bailes, músicas,

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poesias, aventuras". E assinou o favo de destino crucial: "Carmem Só".
N'algumas cartas que lhe vieram a seguir, as informações eram poucas, tímidas
ou inúteis. Triviais. Mas eram, todas, um belo contato com o poço seco da
vida. Um elo, um respiradouro de íntima oxigenação de seixos. Um retorno ao
tácito pedido de socorro. Um sujeito assinava Zé Sozinho e tinha sessenta
anos. Era viúvo e sobrevivia com filhos casados por perto. Na foto em preto e
branco, revelava-se calvo mas com belos olhos negros incisivos. Morava
sozinho por toleima. Carmem não respondeu. Não criou coragem para tanto.
Um outro, quarenta anos, mais parecia um aventureiro a querer pôr a mão em
seus bens, dar um golpe. Foi o que deduziu depauperada. Não era tão estúpida
assim. E o sujeito era abusado, insinuoso nas palavras. Conhecia bem o estilo.
Tinha sido usada na vau da mesma lábia. Separou as doze cartinhas e aquilo
passou a ser seu bastão de luta, seu quinhão, seu butim. Contatos ralos com a
vida. O que mais estranhou, foi uma cartinha diferente que recebeu, em papel-
arroz, cheirando a rosas, de fina caligrafia, onde uma senhora velha e solitária
(mas extremamente lúcida, culta e muito inteligente) lhe oferecia companhia
para o resto da vida toda, a troco de nada. Apenas fundar roseiral da parceria,
crochês de prosa, retalhos de sentimentos revisitados; de conversa fiada que
fosse, mais juras de solidariedade, sonhos, revisitanças íntimas. Era um
chamado dentro de seu coração partido. Então algo de si, em si, respondeu.
Logo situou-se: Graças a Deus não era a única tão sozinha no mundo, naquele
precário doloroso estágio de dezelo, feito um purgatório. Sim, podia ser a
saída. Uma amiga perdida como ela, solitária, abandonada. A mulher, de
codinome "Vida", não era feliz com seu destino tambémcruel, sentindo-se, por
vezes, odiada em sua missão de ter que ser Ser. Não havia de querer muito.
Talvez tomar uma cerveja gelada com ela, talvez até trocassem figurinhas
carimbadas de ressentimentos, erranças e lamúrias. Sim, era isso. Teria uma
outra história para contar. Escreveu. Foram mais de seis correspondências
enormes, por vários dias sem qualquer resposta. Até que veio o primeiro elo
da corrente. A mulher, que continuava a assinar "Vida", viajava muito, mas,
informara conhecer mares, desertos, planícies. Tivera muitos amantes.
Casados, solteiros, jovens, velhos. Todos tristes. Poderia olhar - pelas
palavras da amiga - na mesma direção como uma janela, um enfoque, um foco
direto de cinema mudo. A amiga - com a qual logo se simpatizou - não mandou
foto qualquer, mas dizia adorar música clássica. Falava várias línguas, tinha
irmãos maldosos e sempre vivera péssimamente em más companhias, correndo
riscos, sendo motivo de lágrimas até de carpideiras. Queria alguém de energia,

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mas, não impura como ela, reconheceu-se. Catou dinheiro, enviou a quantia
que achou ser bastante útil, pediu-implorou que a prezada amiga viesse logo.
Teria um doce lar em Itararé, um quarto pronto de paredemeia, um quintal
ajardinado enorme. E a lua de Itararé era linda, como um enorme queijo de
meia cura caseira, pendurado por Burle Marx no varal sacrossanto do ar.
Contariam causos. Plantariam roseirais, canteiros, milho-pipoca. Tirariam
água do poço enquanto reinventavam razões de subsistência. Talvez pagassem
para que arrumassem o jipe verde. Iriam ver os trigais amarelos de Itararé.
Iriam pelos bares boêmios, ouviriam as canções imprudentes dos jovens, iriam
rir das esperanças loucas dos poetas pós-modernos de Itararé. Quebrariam o
quartzo-róseo do íntimo transido. Leriam livros uma à outra. Romances de
amor e espadas. Uma começaria a história, outra terminaria. Escreveriam um
diário sobre esses tempos de revisitanças. A amiga "Vida" pediu um tempo.
Tinha mil problemas para resolver, passar situações dolorosas a limpo.
Carmem sonhava: colheriam dentes-de-leão selvagem na pradaria acima da
chácara. Vida informou, prudente: continuaria a escrever - que não a deixasse
só - pois que um dia viria sem mais nem menos. Carmem remoçou, cuidou-se.
Passou a existir-se. Podia ver as havências de novo através dos olhos da amiga
Vida. Podia também ver novamente o mundo ingrato com novos olhares puros
de criança; através dos olhos daquela senhora dona de muitas aventuras, uma
estrangeira pintada de viagens, mas infeliz também como ela. Afinal, um amigo
de confiança vale o montante em ouro dobrado. Carmem comprou sementes de
amor-perfeito, plantou girassóis, tílias, jacintos, begônias, violetas, açucenas-
brancas, lírios de São José; abriu janelas com cortinas bordadas a mão. Ouviu
barulhentas músicas jovens. Até as que falavam de amor e paz, amor e flor.
Passou a se aceitar assentada no rol trivial da existência mais comum, que aos
humanos finitos pertence. Passaram-se os anos e o monte de cartas de trocas se
avolumaram. Carmem achou que estava ficando louca, e se lembrou que tinha
lido num livro antigo que a loucura era eterna. Achou melhor continuar a
escrever mais e mais, sempre. Era solitária e abandonada, mas tinha que
continuar escrevendo, para dar seu testemunho de solidão. Passou a amar sua
solidão, só que queria tirar o olho da tristeza desaprendida do gume do
anonimato. Muitos filósofos, cientistas e poetas desde a idade das trevas, ou
mesmo antes dela, tinham escrito sobre a solidão e a morte. Quem a
compreendia? A solidão agora, para ela teria que ser um luxo, apesar de ser
travessia perigosa, dantescamente abismal. Passou a escrever as
correspondências com muito carinho e atenção, depois passando-as

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caprichosamente nos diários que se encardiam de manuseios e releituras
demoradas. As que recebia de resposta, colava como se um selo de promessa,
elo, farol. Lume de continuação. Montou dúzias de cadernos espirais com essa
troca feito um escambo de naufrágios. Será que a amiga tinha se arrependido
de escrever? Será que estava só dando desculpa e não viria mais? Não, não
era isso, sabia, a amiga de codinome Vida era fiel, verdadeira; estava com
problemas mesmo. Sentia isso. Um ano qualquer certamente viria de mala e
cuia. Seria uma benção essa vinda.
Carmem comprou apetrechos e começou a esculpir máscaras
primitivas em pedra-sabão, que perto da chácara tinha de monte. Sentia-se
ativa, digna; era amada por uma amiga espetacular que cedo ou tarde viria a ter
com ela. Fez as pazes com o leque da existência. Era preciso, para não tirar
lascas íntimas de seu sofrer transido. Cuidou de arrumar todo o seu cantinho.
Até, um dia, desparafusada, atrelou a velha mula castrada com nome masculino
de Jeremias, e foi dar uma volta num enorme bosque florido, tirar parceria com
a natureza, cismar. Nessa porção de revisitanças, o tempo ganhou sua surrada
samambaia de crescimento. Passou-se uma década e meia, e Carmem não
reparou na tristeza que ronda o cálice indiferente do longe, no licor de
ausências. Era toda doce com a amiga, da qual recebia até presentes de
épocas, cartões de lugares distantes, poemas variados de poetas antigos,
mortos; até mesmo escritos anônimos vários de séculos passados, alguns de
muito antes de Cristo, de tempos aramaicos e babilônicos. Vestígios de
ausências. A esperança era seu oxigênio, seu eixo norteador.
Um dia, no entanto, enquanto fazia um doce de chuchu que
era uma receita caseira da mãe adorada, descendente de espanhóis, sentiu uma
estranha pontada no peito, como se um risco de gilete a lhe tirar a pele frágil
do íntimo. Um véu de restos na lição da amarga viagem de existir. Estranhou.
Ficou preocupada, de butuca, sondando o devir. A dor parecia mesmo uma
visita externa. A pontada travou-lhe os gestos. Os olhos falharam o prisma da
visão. As mãos murchas abandonaram a colher de barro e pinho. Deus do céu,
o quê era aquilo? Foi quando tudo aconteceu. Era como se uma estranha outra
realidade, cruel, batesse ansiosamente demoradas palmas no portão. A muito
custo olhou pela janela de cortina azul com florezinhas rosas que ela mesmo
bordara em alto relevo. Lá estava ela, sim, era Vida!. De alguma forma algo
dentro de si reconheceu, identificou. Mas, estranhou; estava de mãos dadas
com o seu ente querido, o marido doente, Vlado, que deveria estar vegetando
entre tubos e aparelhos de pacientes em coma na Santa Casa de Misericórdia

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de Itararé? Meu Deus! - o coração disparou um trem ardido, doloroso - o quê
era aquilo tudo? Enxergou e não creu. Olhou-se e não acreditou no que de si
mesma vira. Teve-se pena. Estava velhinha demais. Restava-se acabada nas
tristes azenhas da sua reclusão em expectativa sacrificial. Quanto tempo se
passara desde a primeira cartinha para o maldito jornal? Os canteiros
abandonados. O milharal seco não tinha sido colhido. O poço vazando água
para fora. Os picumãs no teto da casa velha, suja e mal arrumada. O quê tinha
havido, afinal? Seria tarde demais, sim, era isso! Quem vegetara no sonho era
ela. O quê tinha acontecido? questionou, enquanto as lágrimas caiam na face
murcha de anciã, e a dor do assentar-se no tardio ver paralisaram os
movimentos, o sentir, a respiração, a própria cunha vital da vida.
=============================================
(A seguir, três "finais" opcionais para o leitor escolher o seu
preferido, para compor o resultado da ficção do autor)
FINAIS OPCIONAIS
Final Surrealista
Final Trágico
Final Feliz

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0l)-Com muito custo, Carmem balbuciou (ou sonhou precariamente essa nódoa
de intenção) que a bendita amiga "Vida" entrasse, não fizesse cerimônia.
Colocou-se, então, preocupada com o marido que descobriu amar de verdade
naquele momento, pois o ciúme do que supostamente vira tinha essa intenção
recém-descoberta. "Vida" entrou com o seu querido esposo Vlado que estava
meio diferente, reparou Carmem. Abraçou lânguidamente o marido que parecia
frio, estranhamente como se iluminado pelo ar do reencontro, depois de tanto
tempo. Abraçou "Vida" e, antes de perguntar sobre aquilo tudo de inusitado, de
extraordinário que fosse, disse que a adorava demais, que era a maior e melhor
amiga que tivera; como uma asa íntima que era parte de si. Se abraçaram e
choraram. Mas o choro, para Carmem, parecia não vir de dentro da prezada
amiga que afinal conhecera, mas de si mesma, estranhou aturdida, até que o
gume doloroso da dor fatal lhe revelou tudo. O marido tinha morrido há anos, e
aquela amiga solitária e infinitalmente viajada com a qual trocara
correspondências (e que o trazia para recebê-la definitivamente e para sempre)
era na verdade, não a Vida, mas a própria Morte!

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02)-"Vida" entrou e prontamente atendeu a amiga, dando-lhe de presto um
remédio que trouxera de longe, muito longe, do exótico e sábio extremo
oriente. Carmem abraçou como pode o marido, e compreendeu finalmente que
realmente o adorava de alguma maneira, e que ele a amava imensamente
também. Onde se esconde o baú trágico da incompreensível paixão? Então
tinha se recuperado e poderiam passar, felizes, os três, os últimos dias da vida
juntos? Viu que "Vida" estava com um carro branco em frente. Foram buscar as
malas cheias, pesadas. Vida trazia todas as cartas; tinha presentes e também
tinha ramalhete de flores de apresentação. Na cidade soubera do marido da
amiga, e prestativa fora até o hospital onde, como paramédica com experiência
em situações-limites, lhe pensara por dias até sabê-lo fora de riscos. Pois
esperara a total recuperação do marido de Carmem, e o trouxera de volta,
porque ele sentia muita falta da mulher que reconhecera adorar. Vida fez
cuques, sagús, chá silvestre, bolinho de chuva; dançaram valsas, fizeram
planos. Vlado tocou xotes rueiros no acordeom vermelho. Andou rindo pela
chácara, ao beiço da noitinha, com um céu escuro como pele de tatu-bola,
enquanto esperava a sopa de cogumelos para o jantar. Quando tomavam,
juntos, a sobremesa, ouviram pelo rádio, eterno companheiro de Carmem, que
tinha havido uma explosão e vazamento radioativo na Usina Nuclear de Iperó,
cidade ali pertinho de Itararé. Repentinamente um estranho vento (como se de
esquisito lilás xadrez) varreu o lugar, e foi como se Deus tivesse apertado um
interruptor terreal. E um clic apagou para sempre a luz da existência de todos
os seres na tábua de carne da terra.

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03)Carmem, lívida de dor e parecendo estar tendo um colapso, forçou o mais
que pode a visão e observou que, na verdade Carmem estava era com um
senhor mais velho. Entendeu que "ver" o marido que estaria em coma, fora uma
mera visão, um devaneio, uma falha da retina cansada, talvez de nostalgia ou
consciência pesada. Mal se agüentou em pé depois desse faniquito. Desmaiou.
Acordou horas depois, na Santa Casa de Misericórdia de Itararé. Vida estava
ao seu lado, prestativa, solícita, cândida, e aquele senhor que a acompanhara
na verdade era uma antiga paixão impossível dela e que, nas acontecências dos
dias, em viagem (para fugir da solidão) ao Mediterrâneo, o encontrara viúvo e
meio perdido. Então o maravilhoso poder do enorme amor se reencontrou,
coincidindo, se renovando em viço de ternura revisitada, propiciando que o
casal apaixonado, mesmo depois de velhos, permitissem que a paixão
impossível, por décadas, tivesse um terno final feliz. Carmem depois
recuperou-se bem. Ficou sabendo que o marido estava por pouco para escapar
peremptóriamente da morte. Comporiam, os quatro, um ciclo final de
existência feliz em comum, alegres, como no tempo que eram todos jovens e
sonhadores de doce felicidade. Como se puros e dignos outra vez, ali na bela
Chácara Neverland, em Itararé, na Vila Alma-Esperança, na Rua dos Bobos,
Número Zero.
(FIM)

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CARRANCA
Saindo às onze horas do serviço, depois de reger Filosofia da
Educação e Antropologia, em Curso de Magistério, numa Escola Pública do
Município de São Paulo, o Professor Nathaniel Martim, quase cinqüenta anos,
alto, moreno, cabelos grisalhos, barba cerrada já branqueando, tomou o ônibus
Circular e, logo após sete pontos de percurso, menos de quinze minutos,
desceu na esquina de sua residência, um prédio de apartamentos onde morava
num imóvel de dois quartos, no Bairro de Santa Cecília, com a querida esposa
Isaura, de menos de trinta e cinco anos, e pela qual era perdidamente
apaixonado. No entanto, depois de andar uns doze passos, ao invés de entrar
no prédio, um edifício antigo e em reformas por eternos problemas de
vazamento, girando nos calcanhares garrou repentinamente a antiga padaria
cinqüenta metros quase que imediatamente defronte, onde era freguês
conhecido, quando fazia seus lanches rápidos, fiava regularmente pão, leite e
cigarros, agora no propósito de comprar um saco de suspiros rosa, um
refrigerante diet de litro que a bela patroa pedira, também no intento de tomar
umas cervejas e prosear animado com amigos mais velhos, alguns já
aposentados e outros em pior situação: desempregados. Mal adentrou ao
ambiente - cujo dono era o português Joaquim Pimenta - pisando duro como
era de costume rotineiro, algo obeso que era, e ouviu a bruta explosão vindo
do fundo do prédio. O teto e as paredes do edifício de dois andares
desabaram, o peso da construção antiga veio abaixo, um vácuo feito furacão de
impacto jogou Nathaniel padaria à fora, atirando-o para cima, com o refluxo,
depois caindo seu corpo pesado entre dezenas de caixas de repolho-roxo de
um caminhão de feira que, no mesmo instante passava na rua algo úmida, com
as verduras em engradados verdes recebendo o volume de seu corpo em queda
livre, vertical. Apagou direto. Só acordou, quase nove meses depois, quando
foi informado que a sua roupa tinha sido parcialmente destruída, uma pasta sua,
de pertences, sumira; tivera perda de oitenta por cento do cabelo e ainda
tiveram que providenciar um urgente reimplante de pele, pois, por muita sorte
ainda estava vivo, depois de ter vegetado por muito tempo na UTI do Hospital
das Clínicas, para onde fora levado quando os japoneses feirantes o acharam
em petição de miséria, sobre os repolhos e engradados arrebentados e sujos de
sangue. Não portava nenhum documento nessa ocasião, e, quando informou
onde sofrera o problema (que o levara desacordado para ali), os funcionários
da enfermaria confirmaram curiosos e surpresos: o imóvel da padaria ruíra

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todo, as pessoas que estavam nele morreram soterradas, apenas agora sabiam
que ele, apenas ele, por baita sorte, sobrevivera.
Como a pasta de couro marrom que trazia consigo (com provas de
alunos, cheques, dinheiro e documentos) tinha sido achada ao lado de um
estranho corpo desfigurado, com as suas principais características, fora dado
como vítima fatal, como morto, ali se achando na área de tratamento crítico
como um paciente anônimo. Por sorte, tendo ele uma boa resistência física (e
com o tratamento de primeira) acabara por escapar mesmo que sem
identificação e nem sequer ter sido procurado. Aos poucos é que fora dando
sinal de vida, com movimentos lentos, recuperação paulatina, difícil, naquele
tempo todo divagando entre a vida e a morte. Com muito sucesso da equipe
médica especial estava vivo, quase inteiro, com algumas poucas seqüelas
senão que ter que ir em busca da difícil vida oficial, pois que era dado como
finado. Mal despertou, reagindo bem como estava, devidamente avaliado e
tido como perfeito e recuperado para entrar de novo na rotina dos afazeres,
teve alta com o efusivo cumprimento de todos os funcionários daquela ala de
emergência do hospital, pois os atendentes e enfermeiros sabiam que, na
verdade, ele nascera de novo, principalmente por ter sido socorrido a tempo,
além de também lhe creditarem o bom estado físico e mesmo à fé ou a algum
possível milagre da natureza
Inteirado que ninguém o viera visitar, nem o viriam resgatar inteiro
e vivíssimo, ficou num misto de estranheza e de abatimento, de depressão,
também em função dos pesados remédios que viera tomando no soro, ao longo
dos meses ali rendido, em quase coma. Sendo definitivamente liberado, caçou
o resto do paletó em frangalhos, e identificou no bolso interno, da precária
roupa, toda suja de sangue e restos podres de legumes, algum dinheiro que
guardara para pagar uma prestação que esquecera. Saindo do hospital, foi até
uma floricultura e comprou um maço de pequenos girassóis, para fazer
surpresa à querida e bela mulher amada, uma morena-jambo maravilhosa, que
era a própria razão de sua existência de sonhador, de amante, de metido a
romântico e poeta. Ela ficaria emocionada, surpresa. Afinal, estava vivíssimo
da silva e era isso o que realmente importava agora. Sentia alguma tontura,
alguns músculos tensos ainda doendo; trazia sinais do acidente em algumas
partes do corpo, inclusive no rosto, na face no entanto, internamente, os órgãos
reagiram bem, disseram os membros da equipe médica. Tomou um táxi branco
e foi contente para casa, sentindo falta dos cigarros, de amor e de sexo com a
insaciável esposa. Iria pregar um susto na mulher. Depois de tudo bem

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esclarecido, ainda iriam, quando velhos e felizes, rir daquilo tudo de
extraordinário que só acontece mesmo numa megalópole grande como a
encardida São Paulo, qual que um só esgoto a céu aberto.
Desceu na rua onde morava, pagou, e, emocionado entrou no
prédio onde o porteiro Mané se surpreendeu em vê-lo vivo e ainda muito mais
magro, quase que totalmente calvo, além das cicatrizes e da roupa folgada que
os enfermeiros lhe arranjaram quase que por simples caridade, humanismo.
Quase teve um siricotico, o Mané da portaria:
-Mas, o senhor não pode estar vivo! Deusolivre e guarde dr.
Nathaniel, exclamou estupefato o paroara serviçal, corado de susto e medo. E
acrescentou: -"O sr. está parecendo um fantasma, um “franquisteim”, “uma
alma do outro mundo". Nathaniel pediu um cigarro quebra-peito ao
funcionário. Depositou os girassóis frescos sobre a mesinha de entrada do
prédio, e até esboçou um sorriso curto por causa da recente operação perto da
boca, o que reduzira seu queixo, pois o maxilar inferior tinha sido quebrado.
Mal assentou de indagar da esposa ali acima no terceiro andar, e foi
surpreendido com a péssima notícia:
-Sua esposa, Dona Isaura? Mudou, já faz uns seis meses e
tanto. Aliás, voltou para Itararé, de onde os senhores eram. Parece-me que até
arranjou companhia novamente, o sr. sabe; o sr. foi dado como morto, houve
velório, enterro, choro, missa de sétimo dia, essas coisas.
Nathaniel achou aquilo tudo esquisito demais. Era muito
estranho. Não fazia nenhum sentido, ponderou para si mesmo. Ficou
impressionado. Pediu para subir e ver com os próprios olhos, se o apartamento
que era dele, comprado em cem prestações que ainda estaria pagando (mas a
sua morte quitaria a cara dívida), e teve outra surpresa. O apartamento estava
mesmo alugado para um casal estrangeiro, que alegaram ser a proprietária a
Dona Isaura, que ele lhes era totalmente desconhecido. E ainda confirmaram: a
dona do apartamento que locavam, perdera o marido numa explosão ali na
padaria do Português, na esquina da rua. Com o suposto morto, e a patroa não
tendo parentes na capital paulista, então a pobre viúva retornara à cidade natal.
Nathaniel ficou boquiaberto com aquilo tudo.
Tomou um ônibus circular e foi até uma empresa jornalística que
ficava no centro velho da cidade, lá conseguindo o exemplar do jornal que
dizia da trágica explosão, do desabamento e tudo mais, provocado por
vazamento de gás do forno da confeitaria. Sim, conferiu; seu nome realmente
estava na lista dos dezoito mortos, oito funcionários e dez fregueses. E a nota

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policial informava que, curiosamente, um dos mortos só foi localizado ( e
identificado oficialmente) pelas peculiaridades como óculos e boné, por estar
o corpo quase que destroçado; porque estava o cadáver sobre uma pasta que
identificava seu portador com características iguais. Nada mais restava a fazer,
pois fora isso tudo era irreconhecível.
Ficou aturdido. Não achou graça naquele equívoco todo, mas,
ponderou, só mesmo numa metrópole enorme e, às vezes, desumana aquilo
seria crível. Passou na imobiliária que cuidava da locação e se identificou
como marido de Dona Isaura, a herdeira, mas foi informado que ela o tinha
como falecido, passara os bens para o nome dela, recebia pensão dele,
inventariaram tudo, e tinham se ido embora para Itararé, cidade do interior, ao
sul do estado de São Paulo. Lá recebia, mensalmente, a pensão de viúva e o
crédito de aluguel, que o imóvel que herdara rendia religiosamente. Nem
acreditaram muito naquele tipo, quer pela roupa esquisita e folgada, quer pela
aparência de doente, débil mental ou mal curado. Só deram as informações por
mera bondade ocasional, ou, quem sabe, querendo livrar-se daquilo que, se
fosse quem dizia que era, estava mesmo oficialmente morto. E o Dr. Nicolau
Santucci, da empresa imobiliária, ainda sentenciou: Parecia-lhe que a viúva
tinha casado com outro. Nathaniel perguntou-se, intimamente, até onde iria
aquilo tudo de terrível, de inusitadamente inacreditável. Parecia um causo de
Kafka, Murilo Rubião ou mesmo de Nelson Rodrigues. Barbaridade. A vida
estaria lhe pregando uma peça de mau gosto, de terrível humor negro? Estava
com algum dinheiro ainda, por sorte que a enfermeira-chefe guardara o resto
do paletó arrebentado e tinha sido honesta. Tomou o metrô, ali na estação
Liberdade, ganhou a linha da Barra Funda e, em menos de duas horas
embarcou no ônibus intermunicipal para Itararé, onde não tinha outros parentes
que não aquela que o esquecera, o perdera, o largara logo e facilmente. Foi
uma viagem angustiante de quase seis horas. Mal pegou num sono ralo e
sonhou que tinha saído do inferno, para entrar dentro de um enorme ponto de
interrogação. Seria um aviso? Acordou com sudorose, ainda sob o efeito de
tantos remédios que tomara em doses cavalares, para subsistir, sobreviver, dar
naquilo tudo. Para isso é que sobrevivera? Tinha que ser forte, cobrou-se.
Tudo se ajeitaria, considerou. O coração batia espremido. Parecia ter a alma
pisada, e a mente com um dínamo, marcando o ritmo doloroso do medo, da
frustração e até de uma tristeza desaprendida que mal cabia em si. Em Itararé,
onde já não tinha amigos pois deixara a cidade muito moço, perdendo os pais
logo depois e com os dois irmãos vitimados num acidente aéreo em viagem ao

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Cairo, com o endereço dado pela imobiliária, foi à cata do lar, da esposa, da
felicidade perdida. A reboque de uma nova expectativa cruel. Estava
desconfiado. O rosto ainda mal cerzido, meio cadavérico, a perna esquerda
puxando um pouco, mas que logo ficaria boa, umas costelas já colando por
conta de tanta químioterapia, parte do cabelo crescendo e a mão direita com
marca de queimado recente, além do peito quase todo enrugado e sem pelos,
depois de uma delicada operação de reposição de um terço da epiderme. Uns
dez quilos mais magro, boca seca e torta, olheiras, apertou a campainha da
casa onde disseram estar seu norte de identificação, sua reintegração a um
convívio lícito, qualquer que fosse. Apertou outra vez, impaciente, a
campaínha chata e, abrindo-se a porta da casa surgiu a sua esposa Isaura,
grávida de alguns meses, notou, pois que antes ela era bem esbelta, vaidosa e
de fina silhueta. A mulher, assustadíssima, ficou estupefata a lhe sondar
curiosa para saber quem realmente aquilo de surpresa era. Parecia conhecido.
Um fantasma, uma aparição? Depois que colocou acentuado reparo, não
acreditando no que via, não mais conteve a enorme surpresa num grito
lânguido, plangente, segurando-se no batente de peroba, despencando em
seguida, num desmaio lento de olhos virados e músculos frouxos. O quê era
aquilo tudo?, cobrou-se Nathaniel, olhos arregalados, mãos trêmulas, coração
em pandareco, angústia no cadinho sublimado da dor. Num remendo de
minutos, vizinhos caipiras aportaram curiosidade nas janelas, e o tal marido
novo de Isaura, bem mais moço, correu socorrê-la nervoso e prestativo. Mal
pensou-a, acomodando-a num banco do ajardinado com gerâneos de pencas, e
assuntou, rancoroso, aquele tipo em frente da casa e logo imaginou: pelas fotos
que vira num álbum antigo: aquele traste pelo jeito, pelas relembranças bem
apuradas; devia ser o ex-marido de Isaura. Natahiel, no seu enfoque, lívido de
raiva e ciúme ainda inquiriu-se: Então aquele rapagão era o que levara Isaura
no bico? Onde ela o arranjara? Quem era o babaquara? Por quê um tal
casamento rápido, num arranjo de romance sem eira e nem beira? Onde já se
viu aquilo? O coração cortava as fibras da memória entrevada. E aquela
gravidêz? Isaura, afinal, não era estéril? Ou ele é quem era? Ficou nervoso.
Irrompeu-se contra o moço, que a todo custo tentava a respiração normal da
mulher, quando foi contido por vizinhos já aos montes e alvoroçados, que logo
chamaram a polícia, acreditando que algo de anormal estaria acontecendo
naquela casa. O novo casal ali na Vila Gaya era querido; eram felizes, e a
ordem tinha que ser restabelecida a todo custo.

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Depois de precariamente identificado, Nathaniel foi então
inteirado de tudo, tendo sido informado que a esposa o dera como morto de
papel passado, e, como tinha um amante por meses - já não o amando mais
mesmo - casara com aquela nova paixão; tudo se arranjando no confeito triste e
trágico das circunstâncias que coincidiram. Na frente do Delegado-bacharel,
conhecido popularmente como Dr. Feijão, Nathaniel, feito um bobo, ouvia tudo
silente, vigiado por policiais sisudos e abruptos. Os dois pombinhos tinham se
casado num terreiro de candomblé da Dona Santa, mas não no civil; tinham
assumido a paixão secreta, viviam bem e em paz. Logo, Isaura, mesmo com
mais de quarenta anos, engravidou, e então a felicidade se fez completa,
serena, maravilhosa. Como, no entanto, para a idade dela a concepção era de
risco enorme, como o marido era oito anos mais novo, o Delegado inteirado de
tudo, instruiu Nathaniel que contratasse advogado na capital, que não
pertubasse aquele lar, aquele casal de respeito na comunidade, e que fosse
mexer com os papéis em São Paulo, pois, oficialmente ele nem estava vivo,
assim não tendo direitos legais, nem mesmo para ser detido, ora veja. E quem
não estava vivo, não poderia reclamar, ser fichado, sequer pedir ajuda à lei
naquelas circunstâncias inusitadas para todos, devendo de imediato sair da
cidade, dar no pira, ficar calado. Que fosse atrapalhar outro, cantar noutra
freguesia, não bagunçar seu coreto ali. Reclamou que em Itararé já tinha tantos
problemas inusitados, e até explicou os entreveros, como um tal tipo que se
dizia anjo e que entregava bosques, pomares e plantações de sonhos no
coração das pessoas que depois ficavam como se alumbradas, pintando
primitivismos coloridos, fazendo poemas feito contemporâneos salmos de luz,
dançando sinusosos balés imaginários, como serelepes bípedes pelas ruas de
cacau quebrado que eram os paralelepípedos lustrados da cidade. Tinha,
ainda, para resolver, uma espécie de crime perfeito, que era o louco amor de
um velho iluminador de cenários que se apaixonara pela filha cega do
amolador de facas. Tinha, portanto, muita coisa séria para se empatar no
cuorador do tempo, pois parecia até que, alguma bendita coisa de sobrenatural
estaria acontecendo de se encantar ali em Itararé. Nathaniel viu-se de cabeça
pra baixo, pendurado na forca cruel e injusta do mundo. Estava de ponta
cabeça dentro de um buraco sem fim, em péssima situação. Parecia empacado
em tantas coisas incríveis, entre um hospício e um circo de horrores. Era uma
situação estúpida e bisonha que a orquestra das coincidências facultaram de
permitir. Sentiu-se algo enojado. Até onde iria aquilo tudo da vida
conspirando contra si? Pensou em se matar. Não, não faria aquele favor à