poesias,
aventuras". E assinou o favo de destino crucial: "Carmem
Só".
N'algumas
cartas que lhe vieram a seguir, as informações eram poucas, tímidas
ou inúteis.
Triviais. Mas eram, todas, um belo contato com o poço seco da
vida. Um elo,
um respiradouro de íntima oxigenação de seixos. Um retorno ao
tácito pedido
de socorro. Um sujeito assinava Zé Sozinho e tinha sessenta
anos. Era viúvo
e sobrevivia com filhos casados por perto. Na foto em preto e
branco,
revelava-se calvo mas com belos olhos negros incisivos. Morava
sozinho por
toleima. Carmem não respondeu. Não criou coragem para tanto.
Um outro,
quarenta anos, mais parecia um aventureiro a querer pôr a mão em
seus bens, dar
um golpe. Foi o que deduziu depauperada. Não era tão estúpida
assim. E o
sujeito era abusado, insinuoso nas palavras. Conhecia bem o estilo.
Tinha sido
usada na vau da mesma lábia. Separou as doze cartinhas e aquilo
passou a ser
seu bastão de luta, seu quinhão, seu butim. Contatos ralos com a
vida. O que
mais estranhou, foi uma cartinha diferente que recebeu, em papel-
arroz,
cheirando a rosas, de fina caligrafia, onde uma senhora velha e solitária
(mas
extremamente lúcida, culta e muito inteligente) lhe oferecia companhia
para o resto da
vida toda, a troco de nada. Apenas fundar roseiral da parceria,
crochês de
prosa, retalhos de sentimentos revisitados; de conversa fiada que
fosse, mais
juras de solidariedade, sonhos, revisitanças íntimas. Era um
chamado dentro
de seu coração partido. Então algo de si, em si, respondeu.
Logo situou-se:
Graças a Deus não era a única tão sozinha no mundo, naquele
precário
doloroso estágio de dezelo, feito um purgatório. Sim, podia ser a
saída. Uma
amiga perdida como ela, solitária, abandonada. A mulher, de
codinome
"Vida", não era feliz com seu destino tambémcruel, sentindo-se, por
vezes, odiada
em sua missão de ter que ser Ser. Não havia de querer muito.
Talvez tomar
uma cerveja gelada com ela, talvez até trocassem figurinhas
carimbadas de
ressentimentos, erranças e lamúrias. Sim, era isso. Teria uma
outra história
para contar. Escreveu. Foram mais de seis correspondências
enormes, por
vários dias sem qualquer resposta. Até que veio o primeiro elo
da corrente. A
mulher, que continuava a assinar "Vida", viajava muito, mas,
informara
conhecer mares, desertos, planícies. Tivera muitos amantes.
Casados,
solteiros, jovens, velhos. Todos tristes. Poderia olhar - pelas
palavras da
amiga - na mesma direção como uma janela, um enfoque, um foco
direto de
cinema mudo. A amiga - com a qual logo se simpatizou - não mandou
foto qualquer,
mas dizia adorar música clássica. Falava várias línguas, tinha
irmãos maldosos
e sempre vivera péssimamente em más companhias, correndo
riscos, sendo
motivo de lágrimas até de carpideiras. Queria alguém de energia,