REVOLUÇÃO DE 1930      *

1929, preparou a Revolução de 1930. Melhor dizendo, precipitou os acontecimentos, pois o descontentamento popular vinha demonstrando cansaço ante os desmandos do governo, cujo partido majoritário, o P.R.P., liderava a política, com especialidade, a política do café. A monocultura era defendida pelo Congresso Brasileiro. Líderes como Rui Barbosa, já em seu tempo haviam delatado, em seus discursos na Tribuna Parlamentar ou nos jornais (censurados) da época, os erros do partido do governo. Aproximava-se o colapso. Os levantes de 22 e 24 haviam deixado rastros inapagáveis de descontentamento popular. Em 1926 as elites descontentes haviam lançado o Partido Democrático e o país vivia, desde então, duas fortes contradições. Na esperança de garantir o prosseguimento da reforma financeira que implantara. Washington Luís lançou o paulista Julio Prestes de Albuquerque, fiel à sua política, como sucessor. Em março de 1930. Dentro de um clima agitado, a população foi convocada às eleições presidenciais. A escolha seria, de uma lado, o Presidente de São Paulo, dr. Julio Prestes e, de outro Getúlio Vargas, líder da Aliança Liberal. Em meio a muita violência, as eleições processaram-se e Júlio Prestes foi o vencedor. Esse resultado apontou um único caminho: a Revolução. A maioria simpatizante da Aliança Liberal iniciou reuniões de militares em vários estados e o assassinato de João Pessoa, na Paraíba, foi o estopim do levante. Em 1929 os preços do café haviam caído, como reflexo do "crash" da Bolsa de Nova York. Era o começo da ruína da República Velha. As eleições de março, acusadas de fraudulentas, foram a gota que faltava para que o povo se manifestasse abertamente contra o governo. Em 3 de outubro, em manobra conjunta no Rio Grande do Sul, na Paraíba e em Minas Gerais, estourou a Revolução. Em São Paulo, tão logo chegou a notícia, populares exaltados começaram a depredação com as casas lotéricas, quase todas ligadas aos dirigentes do P.R.P. Os jornais "A Gazeta" e "O Correio Paulistano" foram empastelados e seus móveis atirados nas calçadas. Julio Prestes exilou-se no Consulado da Inglaterra. Manchetes espalhafatosas levavam aos leitores notícias com pormenores sobre a marcha vitoriosa das tropas revolucionárias que, do Rio Grande do Sul, subiam a caminho do Rio de Janeiro, capital da República; e que em Itararé, tiveram sua marcha bloqueada pelos legalistas chefiados por Pais de Andrade. Embora com desvantagem numérica, as tropas do governo tinham a seu favor a posição estratégica e defendiam a cidade de Itararé do alto do penhasco escavado pelo rio, no obstáculo natual, a Barreira, uma furna de vinte metros de profundidade. As tropas revoltosas, acontonadas na Fazenda Morungava, a 18 quilômetros da Barreira e chefiadas pelo Gal. Miguel Costa, trocavam escaramuças com as tropas legalistas, estas em grande parte constituídas pela Força Pública do Estado de São Paulo. Entre os dias 4 e 24 de outubro, a cidade de Itararé viveu dias de aflição, ao som de balas sibilantes até ser, aos poucos, abandonada pela populaçào. No Sítio Taquarussu os gaúchos conseguiram atravessar o rio Itararé, no lugar onde o rio se espraia em leito de areia; tomaram de assalto a Casa Grande e tudo mais que havia. A devastação foi completa. Animais de carga e de arado foram soltos e perseguidos. Galinhas e porcos serviram para alimentação. Marcou-se o dia 25 de outubro para o encontro de ambos os lados: os revoltosos do sul e os defensores legalistas do Governo Federal. Reforçaram-se as defesas. O povo já havia esvasiado a cidade. Pais de Andrade preparou um ataque desesperado para o dia 25 quando, na véspera, ao meio dia, transpondo os limites das linhas inimigas, o Dep. Gaúcho Glicério Alves, veio portando uma bandeira branca, propor a cessação das hostilidades, com a notícia de que Washington Luís fora deposto, pois a Armada declarara-se a favor da revolução. Estava terminada a Revolução de 1930. A grande catástrofe fora evitada. Três dias depois o fotógrafo de de Itararé Claro Gustavo Jansson registrou a foto histórica, quando a comitiva de Getúlio Vargas passava de trem, em clima de festa, a caminho do Rio de Janeiro. O fato que acabamos de narar ficou conhecido como "a batalha que não houve" e Itararé sofreu o maior saque de sua história. Todos os objetos de valor foram roubados e os móveis das casas alimentaram grandes fogueiras. Em sua volta, a população encontrou casas vazias com as marcas insolentes deixadas por uma tropa descontrolada ao comemorar a vitória. De Itararé Getúlio Vargas foi para São Paulo. Sua recepção, na gare da Estaçào sorocabana, foi tão entusiasta, que Getúlio Vargas, após Ter descido do trem, tornou a subir, temendo que fosse vítima do entusiasmo incontido do povo. "Pequenino de pernas curtas, de apelido "Petiço", desceu, afinal, do trem e foi recebido aos brados de "Queremos Getúlio... queremos Getúlio...". Embora já fosse meia-noite, Getúlio dirigiu-se diretamente ao Palácio Campos Elíseos e, ferindo a susceptibilidade dos paulistas, entregou o governo do maior estado da federação ao General João Alberto "plebeu forasteiro", nas funçòes de delegado executivo da Revolução no Estado. Às 11 horas da noite do dia 30, sempre aclamadíssimo, Getúlio retomava o trem que o conduziria ao Rio de Janeiro". (cf. Nosso Século, ed. Abril, tomo 1930/1945) - e do livro - "De volta às Raízes" de Eunice Brito Tatit.

(Fotos de Claro C. Jansson - cedidas gentilmente por Doroty Jansson)